A Time Goes By
Meu bem
Me chama de Humphrey Bogart
Que eu te conto Casablanca
Me tira esse sobretudo
Sobretudo, conta tudo
Que eu te dou uma rosa branca
Mas, meu bem
Me chama de Humphrey Bogart
Te dou carona em meu carro
Chevrolet – que sou bacana
Te levo, meu bem, pra cama
Fumamos nossa bagana
Te provo que sou sacana
Te faço toda a denguice
Te dispo que nem a Ingrid
Te dou filhos de montão
Só pra te ver sufocar
Mas me chama de Humphrey Bogart
Faço chover colorido
Como num bom musical
Te chamo de Lauren Bacall
Te danço, te canto, te mostro
Entre as pernas meu bom astral
Te deixo pro enxoval
Meu chapéu preto de gângster
Mil poemas de ninar
Só pra te ouvir sussurar
Como te amo meu Humphrey Bogart!
quando o primeiro amor morreu
eu disse: morri
quando meu pai se foi
coração descontrolado
eu disse: morri
quando as irmãs mortas
a tia morta
eu disse: morri
depois, a avó do Norte
os amigos da sorte
os primos perdidos
o pequinês, o siamês
morri, morri
estou vivo
a poesia pulsa
a natureza explode
o amor me beija na boca
um Deus insiste que sim
sei não
acho que só vou morrer
depois de mim
Chorando sobre um Poema
(lendo "Sob a Espada")
Para Ferreira Gullar
Debruço-me sobre o livro:
o poema invade olhos, tecidos.
Vozes.
Que espada mais aguda
que o eco de seu som?
Que fogo mais forte crepita
eternoa
lém da paixão?
A palavra
viva
transcende a sua hora.
Sempre
é tempo
que não nasceu.
E o poeta é só
um homem
dentro
de Deus.
Substantivos
Faca é faca
Pão é pão
Fome é fome
Amor é amor
Estranho desígnio das coisas
De serem exatamente elas
Quando as olhamos sem paixão
A Hora Absoluta
Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.
Teias
Alimentar aranhas,
eis o meu ofício.
Deixá-las criar tentáculos.
Moscas mansas
apaixonadamente sangrar.
Cuidá-las para tecer
os pequenos vícios
do seu tear: venenos sutis:
tatos improváveis- vivê-las.
Redescobrir as cores
as sedes e as sedas.
As sendas do meu destino
nelas entrelaçar: véus de astúcia:
morte e viuvez.
Decifrar sua dança: rede de valsas:
fios de arame.
Aprender com elas
o ritmo do salto.
Cilada
O amor não é a lua
iluminando o arco-íris
nem a estrela-guia
mirando o oceano
O amor não é o vinho
embebedando lençóis
nem o beijo louco
na boca úmida do dia
O amor não é a vitória
dos navios e dos barcos
nem a paz cavalgando
cavalos alados
O amor é, sobretudo
a faca no laço do laçador
O amor é, exatamente
o tiro no peito do matador
Asas
A dor não tem dó
Anda garbosa ao seu lado
e ao primeiro nada
morde o pescoço
nega o beijo, o desejo: cilada.
A dor não tem dó
Gordura no peito
nos pêlos, na pele
câncer, tuberculose
infarto, embolia: overdose.
A dor não tem dó
Viúva assanhada
corte sem faca
volta sempre ao seu morto
lesma de vidro: visgo de jaca
Tanussi Cardoso